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Deputado federal Antônio Andrade substitui Mendes Ribeiro no Ministério da Agricultura e fortalece aliança PT-PMDB para 2014. Fernando Pimentel era único representante do estado

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Leonardo Augusto

Na primeira troca de ministros não motivada por crises, a presidente Dilma Rousseff (PT) decidiu entregar a Minas Gerais o primeiro cargo na cúpula do governo federal a ser ocupado por indicação eminentemente política. O deputado federal Antônio Andrade (PMDB-MG), presidente do partido no estado, foi confirmado como novo ministro da Agricultura, em substituição ao também deputado federal Mendes Ribeiro Filho (RS), colega de partido de Andrade. O único cargo no primeiro escalão do governo Dilma ocupado por um mineiro era o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que tem como titular o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, amigo e companheiro de militância da presidente na oposição à ditadura militar.

Além da substituição na Agricultura, a Presidência divulgou nota no início da noite anunciando que deixavam o cargo Brizola Neto, no Trabalho e Wagner Bittencourt, na Secretaria de Aviação Civil. Por ora, a Secretaria de Assuntos Estratégicos será ocupada interinamente pelo secretário-executivo Roger Leal. Isso porque o titular da pasta, Wellington Moreira Franco, assume a Secretaria de Aviação Civil. Para o Trabalho, foi o advogado Manoel Dias (SC), secretário-geral do PDT. A posse dos novos ministros será hoje às 10h porque a presidente viaja à Itália para a primeira missa do novo papa, na terça-feira.

A mudança na Agricultura tem como objetivo fortalecer a aliança entre PT e PMDB em Minas Gerais – a presidente nasceu em Belo Horizonte –, garantindo a união dos dois partidos nas disputas para o governo do estado e Presidência da República em 2014. Por outro lado, perde representatividade na Esplanada dos Ministérios o Rio Grande do Sul, onde a presidente construiu sua carreira política.

Antônio Andrade ressaltou o fato de o cargo significar uma maior presença de Minas no governo federal. “É um avanço muito grande para o estado, que sempre esteve muito presente nos governos passados”, avaliou. Apesar do discurso, a vontade do PMDB era ocupar o Ministério dos Transportes. “Há obras importantes a serem feitas no estado, como a duplicação da BR-040, da BR-381 e o Anel Rodoviário de Belo Horizonte. Mas a decisão é da presidente”, argumentou o parlamentar, no momento em que se dirigia a um encontro com o vice-presidente Michel Temer (PMDB), encarregado pela presidente de comunicar a Andrade que ele assumiria a pasta da Agricultura.

A definição da ida do deputado para o cargo aconteceu em uma conversa entre Dilma e Temer na noite de quinta-feira. Dentro do PMDB, a avaliação é de que, mesmo tendo perdido o Ministério dos Transportes, permanece a expectativa, ainda que em menor escala, de fortalecimento do partido. “Dá para atender as demandas de prefeitos e de sindicatos rurais, por exemplo”, alegou um peemedebista.

Recompensa

A indicação de um integrante do PMDB para a Agricultura remete ainda à eleição para prefeito de Belo Horizonte no ano passado. Para garantir o apoio da legenda ao candidato petista, Patrus Ananias, o partido da presidente Dilma teria assegurado a entrega de um ministério ao aliado, que ensaiava lançar o deputado federal Leonardo Quintão na disputa contra o prefeito Marcio Lacerda (PSB), que acabou conseguindo a reeleição. Com a ida de Andrade para o ministério, o deputado federal Saraiva Felipe assume a Presidência do PMDB em Minas.

Quintão ressentido

A minirreforma ministerial iniciada ontem deixou um rastro de ressentimentos em Brasília. Um dos nomes cotados para assumir um ministério, mas que acabou preterido ao término do processo, o deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG) não escondeu ontem sua irritação. “Respeito a decisão, uma vez que quem escolhe ministro é a presidente, mas o acordo tinha sido comigo”, disse ele ao Estado de Minas, sem esconder sua disposição futura: “Agora, estou bastante confortável para o futuro. Com menos compromisso”. Quintão reclama que foi ele, e não Antônio Andrade, que abriu mão da candidatura para apoiar o petista Patrus Ananias na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte em 2012.

Perfil

Produtor rural

Antônio Andrade tem 59 anos e nasceu em Patos de Minas, no Alto Paranaíba. Em 2010, foi eleito deputado federal pela primeira vez, com 117.722 votos, o que o colocou na 22ª posição entre os candidatos mais votados. É engenheiro civil e produtor rural. Seu antecessor no ministério é advogado e ex-secretário de Obras Públicas do Rio Grande do Sul. Andrade se filiou ao PMDB em 1987 e nunca deixou o partido. Começou a carreira política como presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Vazante, no Noroeste de Minas. Foi prefeito da cidade (1989/1992) e dois anos depois de concluir o mandato foi eleito deputado estadual, cargo que exerceu por mais duas legislaturas. Está no segundo mandato na Câmara dos Deputados. A base eleitoral do novo ministro fica nas regiões Noroeste, Alto-Paranaíba, Triângulo Mineiro e Centro-Oeste, exatamente as maiores produtoras de grãos, carne bovina e de frango do estado.

Atraso muda rumo da minirreforma ministerial

A minirreforma ministerial prometida pela presidente Dilma Rousseff tão logo encerrou-se a campanha municipal de 2012 conseguiu resolver apenas as demandas do PMDB e do PDT. Do ponto de vista prático, a reforma ministerial pouco acrescentou politicamente ao governo. Como observaram interlocutores da base aliada, a presidente não agregou um deputado a mais na base nem ganhou um segundo extra no tempo de televisão para a campanha presidencial de 2014. “Foi uma reforma de soma final zero”, ironizou um articulador político.

A demora da presidente Dilma em definir o que fazer alterou por completo os rumos da reforma ministerial. O plano original era incluir o PSD no governo e compensar o PMDB paulista, especificamente o deputado Gabriel Chalita, pelo apoio dado ao petista Fernando Haddad no segundo turno das eleições para a Prefeitura de São Paulo. Como surgiram as pressões do PMDB mineiro e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, preferiu ficar independente, as negociações mudaram de rumo.
Amparados pelo lobby do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que não queria Chalita no Ministério da Ciência e Tecnologia — e beneficiados pelas denúncias de corrupção que afundaram as pretensões ministeriais do parlamentar paulistano —, os mineiros conseguiram uma pasta na Esplanada.
Já no caso do PDT, Dilma decidiu substituir Brizola Neto por Manoel Dias por avaliar que o primeiro não conseguiu unificar o PDT, cada vez mais alinhado ao ex-ministro Carlos Lupi. Presidente nacional da legenda, Lupi não estava ontem em Brasília. Alegou não ter “conseguido passagem para vir do Rio de Janeiro para Brasília”.

Pendências

Há ainda duas mudanças pendentes na reforma ministerial de Dilma: acomodar o PR e o PSD. A recém-criada Secretaria de Micro e Pequenas Empresas deve ficar com o PSD. O principal nome da legenda, Gilberto Kassab, não quer que o cargo seja entregue ao partido agora para evitar que a nomeação seja interpretada como parte das negociações eleitorais de Dilma. Apesar de o ministro dos Transportes, Pedro Passos, ser filiado ao PR, a legenda o considera como cota pessoal de Dilma. O partido insiste em ampliar seu espaço na Esplanada. (Com Karla Correia, Rosana Hessel e Denise Rothenburg)

Jornal Estado de Minas